CJ realiza oficina de validação de documentos para a AB

Promoção da Saúde e Cuidado à Saúde do Adolescente são os temas dos documentos destinados aos profissionais da Atenção Básica do SUS de todo o país

O  Cidadania Jovem realizou no Ipads, na última terça-feira, 14 de maio,duas  oficinas de validação dos documentos que estão sendo elaborados pelo projeto e que serão destinados às mais de 40 mil Unidades Básicas de Saúde do SUS de todo o país: o Caderno de Promoção da Saúde do Adolescente e o manual técnico O Cuidado à Saúde do Adolescente na Atenção Básica.  

Participaram dos trabalhos cerca de 30 profissionais de diferentes áreas, entre integrantes da equipe técnica do projeto, consultores convidados e representantes das instituições parceiras Bayer e Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde, Conasems.

 

Apresentação do Caderno de Promoção da Saúde do Adolescente

Pela manhã, foram apresentados os conteúdos do Caderno de Promoção da Saúde do Adolescente, que está sendo elaborado pelo psicólogo e doutor em Saúde Coletiva, Bruno Emerich, e o doutorando em economia, graduado em Gestão de Políticas Públicas, Gustavo Gava.

Como resultado de uma intensa pesquisa realizada desde o início do ano, o documento reúne várias informações sobre a situação epidemiológica dos adolescentes, uma população que, embora tenha registrado queda nos últimos anos, ainda soma mais de 33 milhões de brasileiros.

Entre os dados apresentados, destacam-se o elevado índice (69%) de mortalidade por Causas Externas, que incluem os acidentes de trânsito, homicídios e suicídios; o consumo de álcool, já experimentado por mais de 60% dos jovens; o aumento do número de notificações de violência sexual e a incidência de gravidez precoce – só em 2015, foram registrados 501 mil nascimentos de filhos de adolescentes no Brasil .

As informações deverão servir de base de sustentação para a proposta do documento, que é estimular nos trabalhadores da Atenção Básica a percepção da importância da promoção da saúde dos adolescentes. O Caderno também vai  oferecer subsídios para a captação dos adolescentes e para o desenvolvimento de ações voltadas a essa faixa etária, apresentando os pontos que devem ser considerados pelos profissionais de acordo com os perfis demográfico e epidemiológico, as características e as necessidades do território de atuação das UBSs..

O psicólogo Bruno Emerich fala sobre os subsídios que o documento dará aos profissionais da AB

Um dos grandes desafios apontados pelos participantes da oficina é o trabalho de imprimir no documento uma linguagem objetiva e acessível, tanto para os profissionais dos variados níveis e de diferentes regiões do país, como para o público alvo, formados por adolescentes em situação de vulnerabilidade. “O documento precisa de uma linguagem sem sofisticação. E o mais importante é o modus operandi e o locus – quais ações, onde? Esses pontos precisam ficar bem visíveis”, disse a médica pediatra e presidente da Organização Vivere, de Estudos em Políticas Sociais,  Marilena Gentile.

 

Embora seja voltado aos profissionais da Atenção Básica, o Caderno não deverá  responsabilizar apenas as UBSs pela promoção da saúde. A ideia é de que o trabalho de promoção conte com os profissionais de saúde da UBS, mas que envolva outros setores e organizações da sociedade.

“ A promoção da saúde é a promoção da qualidade de vida, já nasce nessa perspectiva intersetorial. Vamos  fazer alguns ajustes de formato no documento, para atingir essa clientela envolvendo, além das unidades básicas, outros setores da sociedade civil organizada e os equipamentos existentes em outros territórios”, explicou a médica sanitarista e coordenadora do Cidadania Jovem, Carmen Lavras.

A coordenadora do projeto, doutora Carmen Lavras: perspectiva intersetorial

“Acho que a cada encontro a gente tem surpresas positivas. A expectativa é a melhor possível com essa elaboração e com essa abordagem profissional, multisetorial, de aplicação lá na ponta, respeitando a diversidade. Pode auxiliar o município no trabalho frente às demandas apresentadas que o município tem dificuldades de enfrentar ”, disse o diretor técnico do Conasems, Hisham Hamida.

Também secretário de Saúde em Goianésia (GO), um dos cinco municípios onde o Cidadania Jovem vai atuar diretamente com os adolescentes, Hamida acredita que  “esse olhar diferenciado” vai auxiliar não só os profissionais das UBSs mas também de outras áreas da administração pública, como a Assistência Social: “E essa integração vai ser muito produtiva!”.

Manual técnico

No período da tarde  foi apresentado o manual técnico O Cuidado à Saúde  do Adolescente na Atenção Básica, elaborado pela dentista sanitarista doutora em Saúde Coletiva, Juliana Pasti Villalba; a médica responsável pela disciplina de Medicina do Adolescente da Unicamp, Lília D’Souza-Li, e a médica Elizete Prescinotti Andrade.

Da esquerda para a direita: Juliana Pasti Villalba e Lília D’Souza-Li na apresentação do manual técnico

Voltado aos profissionais que desenvolvem atividades clínicas na AB, o documento reúne um conjunto de ações e procedimentos técnicos especializados que devem compor a assistência a ser ofertada aos adolescentes nas UBSs, em consonância com as recomendações dos órgãos regulatórios brasileiros e da Organização Mundial da Saúde.

O manual parte da conceituação da adolescência nos aspectos físicos, psicológicos e sociais e aborda o desenvolvimento sexual e o cenário atual, com os riscos inerentes à essa faixa etária, relacionando questões importantes da linha de cuidado dentro das UBSs. Entre elas, a organização dos serviços da unidade, os aspectos éticos e legais no atendimento aos adolescentes e a atenção integral ao desenvolvimento sexual e reprodutivo e ao uso abusivo de álcool e outras drogas.

Acompanha o manual um quadro síntese com vários ítens,  como público alvo, ações, medicamentos e outros insumos que devem ser ofertados na AB. Em cada um dos ítens desse quadro, os assuntos de maior relevância são destacados, na versão informatizada do documento,  com hyperlinks que facilitam a pesquisa mais detalhada e o acesso mais rápido às informações sobre o tema. O Conasems apoiará a distribuição para as UBSs dos 5.570 municípios de todo o país e, caso a opção seja por uma versão impressa, os hyperlinks serão substituídos por encartes.

Convidados das oficinas: gravidez na adolescência é uma das maiores preocupações

O documento foi muito bem recebido pelos convidados, que chamaram a atenção para os fatos mais relevantes, como a violência sexual e a gravidez precoce. “Gostei muito da oficina, achei extremamente produtiva. Acho que estão todos muito abertos a contribuições e é assim, na multiprofissionalidade, que vamos avançar nos cuidados à saúde dessa faixa etária. O adolescente tem uma vulnerabilidade muito grande e temos que acolhê-lo na sua chegada, bem como trabalhar o adolescente que ainda não apresenta muita dificuldade”, avaliou a médica pediatra e docente da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, Maria José Sant’Anna.

 

A professora do Departamento de Medicina da USP, doutora Maria Ignez Saito, também pediatra, disse que  o manual será indispensável aos profissionais de saúde. “Se não houver uma preocupação, uma linha de cuidado com a ênfase que vai ser dada à promoção e prevenção em saúde, nós vamos estar falhando em uma área importante que é a adolescência. Experiências exitosas ou negativas dessa faixa etária se refletem não só na adolescência, mas também na idade adulta e até na próxima geração, como nos casos de HIV, uso de drogas e complicações para as crianças descendentes”, exemplifica.

Para a doutora Maria Ignez Saito, o manual ajudará os profissionais da AB nas questões éticas que envolvem o cuidado à saúde do adolescente

A leitura do manual, segundo ela, deve estimular nos profissionais a abordagem dos jovens sem a presença dos responsáveis, o que é um direito dos adolescentes: “Vai trazer mais tranquilidade aos profissionais da AB, reavivar e aprimorar seus conhecimentos, principalmente nas áreas que envolvem princípios éticos em relação à autonomia do adolescente, que envolvem sigilo, privacidade. O atendimento do adolescente desacompanhado tem de acontecer, senão não teremos prevenção”.

“Foi um encontro muito feliz”, avaliou Carmen Lavras. “ Essa discussão teve grandes contribuições externas, inclusive, mas mostrou que o material produzido está bem focado, abordando as principais questões que hoje fazem parte desse universo, que é a saúde do adolescente, com todos os riscos e com as características dessa faixa etária. Eu acho que foi bastante produtivo e que nós vamos ter um material bastante consistente, tanto da promoção da saúde quanto do manual técnico”, finalizou.