Coleção COVID-19

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde – CONASS, lançou por meio eletrônico a Coleção COVID-19,  composta por 6 volumes e escritos por dezenas de autores.

No  Volume 4, Dra. Carmen Lavras escreveu sobre o tema  “Atuação das equipes de APS durante o período de enfrentamento da COVID-19.”

 

 

 

 

 

 

Um olhar sobre o Avanço da Epidemia de COVID 19 em Campinas

Texto de Dra. Carmen Lavras, Médica Sanitarista, especialista em Planejamento e Gerenciamento em Saúde, doutora em Saúde Coletiva. Sócia Fundadora do IPADS, ex-secretária de Saúde de Campinas, foi docente do Departamento de Medicina Social e Preventiva da FCM da PUC Campinas durante 25 anos. Atualmente é pesquisadora do Núcleo de Estudos em Políticas Públicas da UNICAMP.

 

 

Estamos vivendo um dos maiores períodos de crise de nossa história recente, com forte impacto na vida das pessoas e na organização das sociedades em praticamente, todos os países do mundo, mesmo que de forma diversificada.

Essa crise acomete o nosso país, também de forma diferenciada, seja em função da diversidade regional existente, seja em função das profundas desigualdades sociais presentes em nossa sociedade ou, ainda, da forma como cada região vem conduzindo seu próprio processo de enfrentamento.

A crise, causada pela epidemia de COVID 19, exige, para seu enfrentamento, um conjunto de medidas de caráter individual e coletivo, particularmente, centradas na preservação da saúde e na proteção social.

E no curto período de sua existência, já podemos perceber, tanto em outros países como no próprio Brasil, um conjunto de iniciativas bem sucedidas que podem ser reconhecidas como “lições aprendidas”.

Nessa perspectiva, podem ser analisados entre outros, os processos de enfrentamento desencadeados pelos municípios de Florianópolis, Belo Horizonte e, Curitiba e, pelo estado do Rio Grande do Sul.

Em Campinas, assim como em vários outros municípios do país, vivemos um processo de isolamento social à praticamente dois meses, que impactam fortemente nossas vidas e a dinâmica de nossa sociedade, com a ressalva que nossos índices de isolamento variaram muito ao longo desse período, em parte, em função das mensagens governamentais tão contraditórias e diversas.

Porém, nesse processo de enfrentamento, Campinas se diferencia de muitos municípios brasileiros, já que pode contar com inúmeros recursos aqui existentes que devem ser considerados como grandes fortalezas.

Refiro-me a presença de: empresas e outras organizações da sociedade civil bem consolidadas; instituições de ensino e pesquisa robustas; organizações comunitárias e movimentos sociais organizados e atuantes; profissionais de saúde preparados e muito comprometidos; e, instituições de saúde em número expressivo e bem estruturadas.

Nesse momento, assiste-se em Campinas e em vários municípios da região, um importante aumento diário dos números oficiais de pacientes infectados e de óbitos, números esses com certeza subestimados, tendo em vista a falta de testagem.

Além disso, observamos, também nos últimos dias, um aumento significativo na ocupação de leitos hospitalares levando quase ao esgotamento leitos de UTI para portadores de COVID, nos principais hospitais que atendem o SUS na região.

Assim, mesmo reconhecendo que as medidas necessárias nesse momento para o enfrentamento dessa crise podem não corresponder a expectativa de uma parcela significativa da população que, sentindo de forma mais contundente o impacto econômico dessa crise, particularmente, relacionados as implicações desse momento de isolamento, almejam o retorno as atividades normais de seu cotidiano, ouso lembrar, que a flexibilização do isolamento social nesse período, no qual os números de infectados e de óbitos ainda estão aumentando dia a dia, pode trazer consequências desastrosas e irreparáveis para nossa sociedade, com perdas de muitas vidas.

Por outro lado, acredito que quando a sociedade sentir de forma mais próxima as consequências desse retorno precipitado, mesmo essa parcela que hoje almeja a rápida saída do isolamento, irá cobrar dos governantes as perdas de vidas daí decorrentes.

Dessa forma, entendo que hoje se faz necessário:

  • Manter e estimular o distanciamento social;

  • Ampliar a realização de testes diagnósticos (PCR) que sustentem ações mais efetivas de rastreamento e bloqueio;

  • Formular um plano de flexibilização acordado com os demais municípios da Região Metropolitana de Campinas, respeitando-se os indicadores e as orientações propostos tanto pela OMS como pela SES SP;

  • Formular um projeto robusto de proteção social, a ser articulado pelo Governo Municipal, mas que conte com ampla participação das organizações e movimentos da sociedade civil;

  • Aprimorar o processo de comunicação social com a sociedade, no sentido de facilitar o entendimento e buscar maior adesão as medidas propostas;

  • Definir medidas especificas e diferenciadas para as regiões com populações socialmente mais vulneráveis;

  • Ampliar, imediatamente, a capacidade de assistência hospitalar para portadores de COVID tendo em vista a superlotação dos leitos de UTI existentes; e,

  • Fortalecer a articulação regional para proposição de medidas conjuntas de enfrentamento da epidemia.

Quero acreditar que Campinas reúna todas as condições necessárias para, nesse momento, contando com o potencial de todas as forças sociais aqui existentes, ajustar seu processo de enfrentamento dessa crise de forma a responder adequadamente a uma realidade que se modifica a cada dia, imprimindo uma condução cientificamente bem embasada e socialmente responsável, buscando minimizar os riscos a que estamos todos expostos pela própria natureza dessa epidemia.

 

Imagem destacada  de fernando zhiminaicela por Pixabay

Um Sistema de Saúde Único

Por  Mair Pedro de Souza e Tisuko Sinto Rinaldi 

Mair Pedro de Souza

Médico Hematologista. Responsável pela implantação Serviço de Transplantes de Medula Óssea Mestre em Hematologia pela Faculdade de Medicina de Botucatu da UNESP. Ex- Secretário Municipal de Saúde de Jaú/ SP.

 

Tisuko Sinto Rinaldi

Médica Pediatra e Sanitarista. Ex-Secretária Municipal de Saúde de Jaú/SP. Docente da Faculdade de Medicina UNOESTE Jaú. Pesquisadora colaboradora no Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP), no Programa de Estudos de Sistemas de Saúde (PESS) da UNICAMP. Sócia Fundadora do Instituto de Pesquisa e Apoio ao Desenvolvimento Social (IPADS) em Campinas/SP.

Um Sistema de Saúde Único. “Não se cria igualdade por Lei, ainda que não se consolide a igualdade sem a Lei”(Fleury, S).1 

A pandemia pela Covid-19 está desafiando diariamente, há meses, o Sistema Único de Saúde.

Um sistema público, universal, integral, descentralizado e concebido a duras penas. Os princípios definidos na 8ª Conferência Nacional de Saúde em 1986 foram incorporados à Constituição Federal Brasileira em 1988 e só regulamentado pela lei 8.080 em 1990.

Estão assegurados, na legislação, modelos variados de gestão, organização de serviços de saúde singulares, participação da comunidade e financiamento tríplice. Isto é, estamos falando de um sistema em construção.

A despeito das dificuldades de gestão, da crônica falta de recursos financeiros, da segmentação do sistema e de serviços heterogêneos quanto à qualidade e resolutividade nas unidades de saúde, os brasileiros estão sendo assistidos (em todo o território) e podem contar com uma estrutura amplamente capilarizada.

Capilaridade é uma propriedade que os líquidos apresentam de ascender ou descer em tubos muito finos mesmo contra a força da gravidade.

Depende de tensão superficial causada pela coesão das moléculas do líquido e adesão à superfície do material.

Capilaridade é fundamental para as funções fisiológicas dos animais e plantas.

A semente da “árvore” SUS concebida com muita luta, foi plantada em solo árido e antes de germinar foi pisoteada. Muito.

Tentaram cortar a água. Tentaram evitar que fosse adubada. Mas brotou. Brotou e cresceu.

Adubada por poucos, agredida por tantos.

Cresceu e demonstrou que a coesão e adesão resultaram na necessária tensão que pudesse tornar o sistema amplamente capilarizado. Sistema capaz de resistir aos ataques de diversas pragas.

Há pragas nas folhas, nos pequenos e grandes galhos e até no tronco. As raízes, no entanto, são muito fortes.

Mostrou sua força quando permaneceu em pé e sendo a estrutura que suporta o grosso do peso de uma tragédia do porte da atual pandemia.

Questionado num primeiro momento e aparentemente falido pela falta aguda de recursos humanos e hospitalares de cuidados intensivos, foi surpreendido pela avalanche do novo coronavírus como ocorreu em outros países, onde nenhum sistema de saúde estava pronto para uma catástrofe desta natureza.

Mas o SUS capilarizou conceitos, criou uma força de trabalho e de organização de serviços ainda desconhecida por muitos.

Capacitar tantas pessoas mesmo com salários e condições de trabalho muitas vezes aquém do razoável, tem sido o grande exercício do SUS.

Estar disponível para mais de 210 milhões de pessoas não tem sido uma tarefa uniformemente realizada no tempo desejado, mas é uma das metas.

Assegurar a maioria dos procedimentos de alto custo para o cidadão, mesmo sendo usuário de um plano privado de saúde é uma pratica habitual. E o sistema segue firme. E segue dando frutos.

Na pandemia está seguindo adiante, apesar de duas trocas de ministros e da sistemática sinalização contrária aos métodos científicos por parte da Presidência da República.

A árvore que recebe pouco cuidado financeiro se mostra capaz de sobreviver à geada da falta de liderança.

Demonstração de que a rede cresceu, amadureceu e o sistema anda com pernas próprias.

Claro que andaria melhor e mais rápido com uma gestão comprometida, atenta, preparada e proativa.

O reconhecimento da importância do SUS, ainda que tardio, será uma das consequências do desastre causado pelo SARS-CoV-2.

Na Inglaterra, o primeiro ministro chegou a negar os riscos da pandemia e priorizar os cuidados com os impactos econômicos decorrentes do distanciamento social.

Foi gravemente acometido pelo vírus e acabou sendo internado pelo sistema público do seu país.

Após a alta hospitalar, agradeceu emocionado ao sistema de saúde e às pessoas que dele fazem parte.

Como forma de agradecimento, deu ao seu filho recém-nascido o nome de dois dos médicos que contribuíram para sua recuperação.

As dificuldades inevitáveis numa situação de exigência extrema não deverão impedir a valorização do nosso serviço público de saúde que deverá ser vital no período pós pandemia, para recuperação dos adoentados e atenção a todos brasileiros independentemente de cor, raça, idade, sexo, credo, trabalhador, desempregado, pobre, rico, enfim, a todos os cidadãos deste país.

No país tão desigual como o nosso, o SUS é cada vez mais necessário e defendêlo é o que podemos e devemos fazer hoje.

1. Fleury S. Saúde e democracia: a luta do CEBES. São Paulo: Lemos Editorial; 1997. Editorial L, editor. 1997. 34 p

 

Pandemia: Direito à Vida e Economia

 Texto de Domenico Feliciello¹

O direito à vida não é somente viver, mas sim viver com dignidade, com o mínimo de cidadania, viver com qualidade de vida, com liberdades, prazeres, alegrias, incluindo o direito à integridade moral e física e, à privacidade, entre muitos outros (Paula G. R. D. Alencar)

 

Nestes tempos de pandemia da COVID-19 muito se discute sobre a necessidade de isolamento e “lockdown” para possibilitar controle de casos e óbitos, assim como a adequação dos serviços de saúde, com o objetivo de prover assistência e tratamento adequado, com acesso a todos que necessitam.

Por outro lado, temos assistido posicionamentos diferentes, originados de vários setores econômicos e mesmo de governantes, insistindo que o isolamento leva à crise econômica, à queda do PIB e ao desemprego e, por consequência, à elevação da mortalidade, que pode ser maior do que a própria mortalidade causada diretamente pela pandemia.

Esta discussão está instalada nas sociedades levando ao surgimento de uma série de argumentos contra e a favor, que buscamos resumir adiante, com o objetivo de subsidiar as decisões e ações quanto às melhores formas de conduzir o controle da pandemia.

No caso do Brasil vale a pena assinalar, inicialmente, que o direito à vida se constitui num dos direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988, expresso no seu artigo 5º: “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Assim, ninguém tem o direito de se desfazer da vida humana, do outro, pois estará sujeito a sofrer as sanções expressas nas leis do ordenamento jurídico de nosso país.

No entanto na presente pandemia coloca-se em discussão como preservar mais vidas, através do isolamento e do controle da epidemia da COVID-19, ou com o relaxamento desse isolamento e retorno às atividades econômicas, o mais rápido possível.

Vários estudiosos têm se debruçado sobre esta questão, alguns demonstrando o número de óbitos que deixaram de ocorrer com as ações de isolamento e lockdown e, outros argumentando que a liberação precoce do isolamento não significa que, necessariamente, teremos menor queda do PIB e, portanto, uma crise econômica mais branda.

Ou seja, o isolamento pode prevenir mortes, mas os problemas econômicos vão acontecer com ou sem isolamento.

Neste último aspecto é preciso considerar que mesmo com o retorno às atividades econômicas, devem ser continuadas as ações de prevenção, tais como uso de máscaras; intensificação de medidas de higiene pessoal; distanciamento social, evitando aglomerações; diminuição do  horário de funcionamento dos estabelecimentos comerciais, entre outros, o que por si só, já vai diminuir o desenvolvimento econômico.

Além dessas questões é preciso ponderar que uma parte da população não vai retornar ao trabalho, seja por medo de se contaminar ou por medo de contaminar os familiares, ou, ainda, pela necessidade de cuidar de seus familiares.

Por outro lado, os trabalhadores contaminados deverão se afastar do trabalho para cumprir quarentena, assim como deverão ser investigados os contactantes no trabalho para descobrir novos contaminados, que também deverão ser afastados.

Alguns estudos mostram também que nestas épocas de crise as famílias e as empresas tendem a não gastar e não investir; os investimentos externos diminuem com medo da falta de controles; e, não existem dados consistentes que relacionam queda do PIB e crise econômica temporária com aumento da mortalidade.

Ou seja, estas várias situações, com o relaxamento do isolamento, irão se refletir negativamente no desenvolvimento econômico, sem contar os gastos maiores com a assistência aos contaminados que serão em maior quantidade.

Por outro lado, uma crise econômica transitória tem grandes chances de ser suplantada pelas sociedades. Isso, sem contar que a perda de vidas se constitui em um fato irreparável e sem retorno.

Portanto, com ou sem isolamento haverá crise econômica, mas com isolamento evita-se número de contaminados e de óbitos elevados, conforme já constatado nos países que realizaram um isolamento mais consistente.

Os dados mostram também que nas sociedades com índice de isolamento acima de 70% conseguiram um controle da epidemia em menor tempo.

Por outro lado, vários estudos mostram que o aumento de mortalidade por questões econômicas está mais relacionado com as políticas de austeridade fiscal, de longo prazo, que se propõem a fornecer estímulos econômicos aos diversos setores produtivos, concomitante à retirada ou diminuição de direitos dos cidadãos, incluindo reformas previdenciárias, flexibilização dos contratos de trabalho, diminuição de orçamentos para saúde, educação, promoção social e ciência e tecnologia.

Assim, considerando que a crise econômica estará presente de qualquer modo, advertimos que as prioridades das sociedades e dos governantes devem se concentrar no controle da epidemia e na queda dos óbitos e, na oferta tanto de ações de atenção à saúde a todos de forma igualitária, como de proteção social para preservar a renda e a sobrevivência dos grupos mais afetados.

O relaxamento do isolamento deve se pautar pelo acompanhamento adequado da pandemia, com a implantação de exames massivos para detectar o vírus SARS-CoV-2 nos que apresentam quadro suspeito e, caso positivo, nas pessoas de seu contato.

 

 

1 Domenico Feliciello é doutor em Saúde Coletiva pela UNICAMP e atuou na área de Educação Médica e Saúde Pública em Campinas e região. Atualmente é pesquisador do NEPP UNICAMP, desenvolvendo projetos de fortalecimento do SUS e associado do IPADS.

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