Entendendo o SUS como um projeto de Estado e como uma das políticas públicas mais efetivas em curso no país, um grupo de profissionais do Núcleo de Estudos em Políticas Públicas da UNICAMP, apresenta ideias e proposições que podem suscitar debates e contribuir com o próximo governo municipal em Campinas.
Categoria: políticas públicas
Catálogo de projetos de intervenção do Projeto Aedes na Mira
Durante o encerramento do I Congresso Virtual do Conasems, foram lançadas três publicações que refletem a execução do SUS na ponta.
Uma das publicações foi o Catálogo da mostra de projetos de intervenção do Projeto Aedes na Mira onde estão reunidas experiências de todo o país, escritas pelos alunos das iniciativas educacionais disponibilizadas pelo Projeto.
Esse material é o resultado e o registro de todo esse processo de construção coletiva, que teve início com a participação dos alunos nas capacitações e se desdobrou em ações práticas de integração entre Vigilância em Saúde e Atenção Básica no território.
Esse trabalho coletivo reuniu 264 autores de experiências e projetos de intervenção em Brasília, no XXXV Congresso Nacional do Conasems, em julho de 2019.
Para conferir o Catálogo, clique aqui.
Mais informações sobre o projeto, clique aqui
Caderno de Textos – Vigilância em Saúde nos municípios
Lançado publicamente no encerramento do I Congresso Virtual do CONASEMS 2020, em 12/11, o Caderno de Textos – Vigilância em Saúde nos municípios, importante instrumento de apoio ao aprimoramento e integração da Vigilância em Saúde no SUS, no âmbito do projeto Aedes na Mira.
CONFIRA NO LINK CADERNO DE TEXTOS – VIGILÂNCIA EM SAÚDE NOS MUNICÍPIOS
Boa Leitura !
O Desafio da Informação em Saúde na Pandemia Covid19
Texto de Maria do Carmo Ferreira. Enfermeira Sanitarista, Mestre e Doutoranda em Saúde Coletiva e pesquisadora colaboradora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da UNICAMP.
O Brasil dispõe de uma grande quantidade de informações sobre a condição de saúde dos brasileiros através de diversos Sistemas de Informações em Saúde, que vem sendo construídas desde a década de 80. Suas bases estão disponíveis para que pesquisadores, estudantes, profissionais e gestores da saúde possam acessar e produzir análises da situação de saúde de seu município ou território de interesse. O acesso às bases de dados deve ser dentro dos preceitos éticos, preservando a identidade dos sujeitos.
O problema crônico das informações em saúde no Brasil, é que os sistemas existentes não se integram em uma mesma base de dados; Desta forma, somente para citar alguns exemplos, nascidos vivos (SINASC), mortalidade (SIM), doenças e agravos de notificação compulsória (SINAN) e suas variedades como dengue, influenza, Internações hospitalares (SIH), produção ambulatorial (SIA), imunização (SIPNI), e da atenção básica (e-SUS AB), entre outros, por não se integrarem, dificultam e por vezes até impossibilitam análises mais completas de uma forma mais fácil.
No cenário atual, quando convivemos com uma pandemia de uma doença nova, com uma história natural ainda desconhecida, é de se esperar que os sistemas existentes apresentem dificuldades para dar conta dos registros desse novo agravo.
Frente à pandemia, o Ministério da Saúde optou por utilizar um sistema de informação já existente, mas de acesso limitado às unidades sentinelas da gripe, o SIVEP gripe, para notificação dos casos graves da Covid-19 e das Síndromes Respiratórias Graves (SRAG), e disponibilizou para notificação dos casos de síndrome gripal um outro sistema, e-SUS AB, que é um sistema da Atenção Básica.
Ocorre que esses sistemas, além de sofrerem adaptações na vigência da epidemia, causando apagões de informações e bloqueios de acesso dentre outras ocorrências dificultadoras, não se integram numa mesma base de dados para análise das informações dos casos nas suas diferentes formas clínicas. Também pode acontecer de um mesmo caso ser notificado nos dois sistemas causando duplicidades, o que demandaria um trabalho grande para limpeza destas duplicidades e consequentemente, determinando maiores dificuldades de análise. Além disso, no sistema de informações de síndrome gripal, existe uma imensa quantidade de casos que foram notificados e não investigados laboratorialmente pela falta de exames que existiu no início da pandemia. O que fazer com estes casos? Serão confirmados por critério clínico epidemiológico?
O sentido da existência dos sistemas de informações em saúde, para os gestores, é o de dar subsídios para a tomada de decisões; para os profissionais que prestam assistência à população, eles são fundamentais no apoio às decisões clínicas e no acompanhamento da situação de saúde da população sob sua responsabilidade; para a população em geral, é através das informações dos sistemas, que são desenvolvidos informes, boletins, notícias e outras formas de comunicação a respeito da situação sanitária no território, os riscos existentes, os grupos mais vulneráveis e as medidas mais efetivas para o controle da situação.
No caso da presente pandemia, onde ainda hoje a principal e mais eficaz forma de combate-la é através do distanciamento e isolamento social e adoção de medidas de proteção que não fazem parte de nossa cultura, como o uso de máscaras, a comunicação com a população, baseada em informações seguras, tratadas de acordo com os preceitos epidemiológicos, é fundamental.
O que temos hoje, infelizmente não contempla plenamente nenhum dos objetivos. Temos dificuldade de acesso e de análise das informações. Com isso, a forma como a informação chega até os indivíduos, muitas vezes é através de boletins epidemiológicos com muitos dados, são muito descritivos, mas com pouca análise, dificultando o entendimento por parte da população sobre o verdadeiro risco à sua saúde e quais as medidas a serem tomadas para sua proteção.
A comunicação mais acessível e esclarecedora atualmente é a divulgada pela mídia, que tem desempenhado um papel fundamental na divulgação das informações. Por vezes, a comunicação midiática é focada principalmente na contagem de novos casos e óbitos, com pouca análise e contextualização; no entanto muito se tem esclarecido através das informações produzidas em entrevistas com cientistas, epidemiologistas e outros profissionais de saúde. Mas como fazer para estes debates e informações chegarem para toda a população?
No momento atual, com todas as dificuldades e temores que pandemia e a forma de combate-la traz para o dia a dia da maioria da população, os gestores deveriam aprimorar as análises das informações produzidas e fazer uma tradução do seu significado para a população comunicando o real risco a que a população está submetida, numa linguagem acessível para todos, principalmente para a população socialmente mais vulnerável.
É preciso resgatar os objetivos das informações em saúde.
Bom seria se todas as autoridades levassem a sério a importância da comunicação com informações corretas, produzidas através de estudos epidemiológicos e não daquelas distorcidas de acordo com diferentes interesses políticos e econômicos.
Imagem de Gerd Altmann por Pixabay
Um olhar sobre o Avanço da Epidemia de COVID 19 em Campinas

Texto de Dra. Carmen Lavras, Médica Sanitarista, especialista em Planejamento e Gerenciamento em Saúde, doutora em Saúde Coletiva. Sócia Fundadora do IPADS, ex-secretária de Saúde de Campinas, foi docente do Departamento de Medicina Social e Preventiva da FCM da PUC Campinas durante 25 anos. Atualmente é pesquisadora do Núcleo de Estudos em Políticas Públicas da UNICAMP.
Estamos vivendo um dos maiores períodos de crise de nossa história recente, com forte impacto na vida das pessoas e na organização das sociedades em praticamente, todos os países do mundo, mesmo que de forma diversificada.
Essa crise acomete o nosso país, também de forma diferenciada, seja em função da diversidade regional existente, seja em função das profundas desigualdades sociais presentes em nossa sociedade ou, ainda, da forma como cada região vem conduzindo seu próprio processo de enfrentamento.
A crise, causada pela epidemia de COVID 19, exige, para seu enfrentamento, um conjunto de medidas de caráter individual e coletivo, particularmente, centradas na preservação da saúde e na proteção social.
E no curto período de sua existência, já podemos perceber, tanto em outros países como no próprio Brasil, um conjunto de iniciativas bem sucedidas que podem ser reconhecidas como “lições aprendidas”.
Nessa perspectiva, podem ser analisados entre outros, os processos de enfrentamento desencadeados pelos municípios de Florianópolis, Belo Horizonte e, Curitiba e, pelo estado do Rio Grande do Sul.
Em Campinas, assim como em vários outros municípios do país, vivemos um processo de isolamento social à praticamente dois meses, que impactam fortemente nossas vidas e a dinâmica de nossa sociedade, com a ressalva que nossos índices de isolamento variaram muito ao longo desse período, em parte, em função das mensagens governamentais tão contraditórias e diversas.
Porém, nesse processo de enfrentamento, Campinas se diferencia de muitos municípios brasileiros, já que pode contar com inúmeros recursos aqui existentes que devem ser considerados como grandes fortalezas.
Refiro-me a presença de: empresas e outras organizações da sociedade civil bem consolidadas; instituições de ensino e pesquisa robustas; organizações comunitárias e movimentos sociais organizados e atuantes; profissionais de saúde preparados e muito comprometidos; e, instituições de saúde em número expressivo e bem estruturadas.
Nesse momento, assiste-se em Campinas e em vários municípios da região, um importante aumento diário dos números oficiais de pacientes infectados e de óbitos, números esses com certeza subestimados, tendo em vista a falta de testagem.
Além disso, observamos, também nos últimos dias, um aumento significativo na ocupação de leitos hospitalares levando quase ao esgotamento leitos de UTI para portadores de COVID, nos principais hospitais que atendem o SUS na região.
Assim, mesmo reconhecendo que as medidas necessárias nesse momento para o enfrentamento dessa crise podem não corresponder a expectativa de uma parcela significativa da população que, sentindo de forma mais contundente o impacto econômico dessa crise, particularmente, relacionados as implicações desse momento de isolamento, almejam o retorno as atividades normais de seu cotidiano, ouso lembrar, que a flexibilização do isolamento social nesse período, no qual os números de infectados e de óbitos ainda estão aumentando dia a dia, pode trazer consequências desastrosas e irreparáveis para nossa sociedade, com perdas de muitas vidas.
Por outro lado, acredito que quando a sociedade sentir de forma mais próxima as consequências desse retorno precipitado, mesmo essa parcela que hoje almeja a rápida saída do isolamento, irá cobrar dos governantes as perdas de vidas daí decorrentes.
Dessa forma, entendo que hoje se faz necessário:
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Manter e estimular o distanciamento social;
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Ampliar a realização de testes diagnósticos (PCR) que sustentem ações mais efetivas de rastreamento e bloqueio;
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Formular um plano de flexibilização acordado com os demais municípios da Região Metropolitana de Campinas, respeitando-se os indicadores e as orientações propostos tanto pela OMS como pela SES SP;
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Formular um projeto robusto de proteção social, a ser articulado pelo Governo Municipal, mas que conte com ampla participação das organizações e movimentos da sociedade civil;
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Aprimorar o processo de comunicação social com a sociedade, no sentido de facilitar o entendimento e buscar maior adesão as medidas propostas;
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Definir medidas especificas e diferenciadas para as regiões com populações socialmente mais vulneráveis;
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Ampliar, imediatamente, a capacidade de assistência hospitalar para portadores de COVID tendo em vista a superlotação dos leitos de UTI existentes; e,
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Fortalecer a articulação regional para proposição de medidas conjuntas de enfrentamento da epidemia.
Quero acreditar que Campinas reúna todas as condições necessárias para, nesse momento, contando com o potencial de todas as forças sociais aqui existentes, ajustar seu processo de enfrentamento dessa crise de forma a responder adequadamente a uma realidade que se modifica a cada dia, imprimindo uma condução cientificamente bem embasada e socialmente responsável, buscando minimizar os riscos a que estamos todos expostos pela própria natureza dessa epidemia.
